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Quando o relacionamento virtual se torna paixão


Nas redes sociais reencontrarmos amigos que há muito tempo não víamos e com os quais não mantínhamos mais contato. Elas também trouxeram a oportunidade de encontrarmos pessoas interessantes e que possuem afinidades conosco.

Deste modo, a internet se tornou um excelente meio para aproximar pessoas. Mas, para que estas relações interpessoais sejam avaliadas positivamente, elas necessitam de investimento, ou seja, precisam ser trabalhadas através do contato “real”, do toque, do afeto e do “olho no olho”, dinâmicas que não podem ocorrer isoladamente apenas por chats ou salas de bate-papo.

Apaixonar-se é algo complexo: envolve questões comportamentais, bioquímicas, neurofisiológicas, hormonais e psíquicas. No inicio da paixão temos a tendência de nos relacionamos com um ser idealizado através das nossas projeções, fantasias, necessidades que precisam ser satisfeitas e das carências afetivas que necessitam ser preenchidas.

Por outro lado, queremos mostrar ao ser amado o melhor de nós, o que representa um aspecto importante no processo de conquista. A criação de expectativas tanto nossas quanto do outro, se não elaboradas através de vivências reais, podem conduzir a um relacionamento de desilusão e frustração.

Uma paixão pode durar em média de 6 meses a 2 anos. Para a manutenção desta paixão, o organismo dispende muita energia, o que seria biologicamente contraproducente para manter a pessoa apaixonada por muito mais tempo.

Quando o frenesi da paixão passa, é quando percebemos o individuo tal como é. Neste momento nos questionamos que a pessoa não se comporta mais da mesma maneira. Em outras palavras, não reconhecemos mais os aspectos que achavamos que eram inerentes à pessoa.

Entretanto, é exatamente neste momento que podemos capturar a pessoa tal como ela é, sem as nossas idealizações e fantasias.

As fantasias se esvaem … as máscaras caem. Encontramo-nos face a face com o outro naquilo que de fato somos e naquilo que de fato o outro é: este é o momento da verdade.

Neste ponto de ebulição, cabe ao casal ter condições para passar para a próxima etapa ou não.

Caso o relacionamento tenha subsídios para passar para a etapa seguinte, surge um relacionamento maduro e sólido. Caso isto não aconteça, nos vitimizamos, culpabilizamos o outro, tentamos modifica-lo na esperança de restituir o ser idealizado, o que é inviável.

Na impossibilidade de mantermos um relacionamento idealizado, este “cai por terra” por falta de sincronicidade e identificação, bem como pela busca de compensações por aquilo que não encontramos em nós, nem no outro.

Esta é uma breve descrição do que significa “estar apaixonado” em uma situação da “vida real.

Mas, e quando o relacionamento virtual se torna paixão?

A paixão na “vida real” já traz em seu bojo todas as questões acima relatadas: na busca do outro no que falta em nós mesmos e das nossas fantasias e idealizações.

Imaginem o turbilhão de fantasias desta paixão idealizada virtualmente.

Com as novas formas de subjetivação e dos desdobramentos no psiquismo resultantes do relacionamento virtual, como é esse “apaixonar-se” na internet? Como substituir a carência cinestésica na estruturação do vínculo afetivo na fase inicial do relacionamento?

Nos apaixonamos do mesmo jeito, mas com um detalhe: a possibilidade de uma desilusão amorosa em um relacionamento virtual cresce exponencialmente, até mesmo porque existe a possibilidade do perfil não corresponder à pessoa de fato. E quando isto acontece, o que fazemos com o que sentimos? O que fazemos com as nossas expectativas?

As dinâmicas relacionais virtuais são cheias de expectativas e surpresas as quais muitas vezes não estamos preparados para enfrentar.

Desta forma, se é preciso muita maturidade emocional para nos envolvermos em um relacionamento real, essa maturidade precisa ser ainda mais trabalhada em um relacionamento que começa em uma plataforma virtual. É necessário aprender a fazer leituras ambientais, estar atento aos pequenos detalhes.

Igualmente importante é compartilhar com amigos ou familiares o relacionamento virtual, pois quando estamos envolvidos emocionalmente, não interpretamos bem os fatos e temos a tendência de achar que a pessoa não tem defeitos.

Por outro lado, o desconhecido, o desbravamento de novos horizontes nos fascina. Somos atraídos pelo diferente, inusitado, novo, enigmático. Tudo isto somado à comodidade do computador, com pessoas e tipos para todos os gostos em meio à descartabilidade que norteia os nossos relacionamentos, podemos escolher com quem nos relacionar.

Não sou contra nem a favor dos relacionamentos virtuais. Muitas pessoas encontram através da internet amizades duradouras e até mesmo casamentos bem sucedidos, como podem encontrar pessoas indevidas, golpistas, etc.

A internet é uma ferramenta que pode ser benéfica ou maléfica. Portanto, a dica mais importante é: Como tudo na vida, tudo depende da forma como você usa.

Por Soraya Rodrigues de Aragão